Página em desenvolvimento para as crônicas e assuntos de Brasília, por Gladys Morais Morais, consultora do Artforum Brasil XXI e colaboradora da Universidade Aberta do Futuro "Telhados do Mundo".
Nessa coluna especial do Portal Novo Mundo Melhor, estarão crônicas, links com sites oficiais, textos sobre leis, projetos e propostas que interessam aos cidadãos brasileiros residentes no Brasil e em outros países do Mundo.
Gladys Morais é convidada especial do Artforum Brasil XXI para escrever suas crônicas e coordenar essa página de importância cultural para o ARTFORUM BRASIL XXI.
Falar sobre a capital do meu país, tanto me remete aos ensinamentos recebidos num tempo de certa ingenuidade escolar, no interior do Maranhão, quanto ao sucessivo aprendizado adquirido desde a minha chegada a esta cidade, no final de outubro de 1984, quando Brasília tinha apenas 24 anos de criação e eu, menos idade que isso, além da eventual aquisição de informações pela leitura de livros, jornais, revistas, etc
Nesse exercício de memória vou lembrando que alguns escritos dão o sinal da cruz como um dos primeiros traços na intenção da capital sonhada por JK, mas logo me vêm à lembrança diversas outras informações, de que o esboço da capital federal passou por concurso e sua magistral elaboração coube ao arquiteto e urbanista Lúcio Costa, filho de brasileiros, mas nascido em Toulon, na França, que teria se inspirado nas asas de uma borboleta e, por isso, planejado o que bem conhecemos hoje como Plano Piloto, composto de Asa Sul e Asa Norte, além das cidades-satélites que ajudam a compor todo o Distrito Federal. Embora a versão mais conhecida relacione sua inspiração às asas de um avião, a iconografia nos permite saber que:
O mundo,
que do
antes fim
era de
barro, aparência
areia tinha
vermelha e
ga perspectivas
nhou
con novas
tornos e
de identidade
muita harmonia,
precisão e
Pela intenção político-presidencial de Juscelino Kubitschek,
que anteviu uma capital no cerrado, no centro do planalto;
pela luminosa inspiração de Lúcio Costa,
que viveu 95 anos sem que lhe tenha sido concedido
o merecido título de cidadão brasileiro;
e pelo talento secular de Oscar Niemeyer,
querido arquiteto, o de maior projeção nacional,
cuja visão consegue lapidar o concreto
e vislumbrar o essencial,
cujo desenho busca sempre a melhor perspectiva
de bem-estar de uma população,
demos graças porque essa cidade tão desejada, resultou numa
beleza
geométrica,
por vezes
de assimetria
enigmática,
sofisticada,
mas
quando
compreendida,
tão simples,
tão prática.
cartão-postal,
Cidade seus
monumentos modernos trazem
o gene que dispensa o teste de DNA e são assim apresentados:
para os católicos, turistas nacionais ou estrangeiros,
a Cadetral,
simbolizando céus;
mãos erguidas aos
dando graças
para o exercício legislativo-administrativo,
a Pça dos Três Poderes e
muitos palácios...
... o do Planalto, o da Alvorada...
tantos assim
que um dos presidentes dessa República
sentia-se o próprio rei;
ainda, para o exercício da diplomacia,
o Palácio do Itamaraty
(ou Ministério das Relações Exteriores);
para o exercício da alegria,
o Teatro Nacional Cláudio Santoro...
para a expansão do conhecimento,
o recém-inaugurado conjunto:
Museu de Brasília (sob forma de um disco voador) e a Biblioteca Pública.
Enfim, são inúmeros, interessantes e belos edifícios.
Brasília, uma esplanada de mistérios,
seus pontos turísticos,
suas largas avenidas,
muitas flores, multicores,
seus ipês amarelos...
Uma paisagem assim
não merece a ação dos moleques-pichadores,
nem dos políticos malfeitores,
que se valem da impunidade para inaceitável desconstrução.
Mas como transmitir a outrem essa abstrata constatação,
que faz aflorar o discernimento e
reconhecer o que realmente tem importância?
Quanta complexcidade.
Às vezes parece que tudo já foi dito,
em muitos discursos e efeitos que se esgotam em cada circunstância,
por isso também vale silenciar,
num protesto mudo, de aparente resignação,
depois mais resistência, em nome da esperança vital,
pois os reais valores funcionam como lentes ampliadoras da percepção:
fazem-nos cientes do percurso da história e do
que é preciso preservar.
Brasília, Patrimônio Histórico da Humanidade,
detentora de elevado IDH
e não menos elevado custo de vida,
a nossa capital federal, como toda cidade,
abriga bons e maus cidadãos,
nativos ou oriundos de todos os estados do país ou de qualquer parte do mundo,
lamentável que seja denegrida por todo tipo de alusão, piada ou ironia em
decorrência da fama negativa que a política lhe projetou.
No entanto, a melhor projeção se encontra nas salas de cinemas nos grandes shoppings – apesar do alto custo dos ingressos, diga-se de passagem –
e nos aprazíveis centros culturais,
com seus palcos que propiciam belas peças teatrais e
shows de belíssima produção – também com ingressos caríssimos,
não se deve omitir esse detalhe, mas com algumas ondas de promoções, marés de preços simbólicos e até gratuidade, somadas a atrações artísticas irresistíveis, resultantes de projetos benquistos como:
Arte por Toda Parte (que já adotou sucessivos nomes),
Cultura em Conjunto (no shopping Conjunto Nacional),
Vitrine MPB (no shopping Pátio Brasil),
Cultura em Conjunto Premium (na sala Villa Lobos do Teatro Nacional),
Caixa Cultural (no teatro da C.E.F),
Projeto Pixinguinha (na sala Funarte, onde recentemente vi um belo show de Mônica Salmaso e sua generosa interação com o grupo do rabequeiro Sr. Luiz Paixão)
e o mais recente projeto, intitulado Alegria Alternativa (no Parque da Cidade, onde estive nesse período carnavalesco e pude assistir a dois shows bem interessantes, um do MPB-4 e o outro, da Marina Lima.
O que mais poderia dizer de uma cidade sonhada,
que persiste e se refaz com muito encanto e sonoridade?
Trouxe à luz o Legião Urbana,
do saudoso Renato Russo e seu rock literário,
projetou a não menos talentosa cantora Cássia Eller,
que também já integra a constelação da eternidade,
e foi aqui também que, dentre muitos, despontaram
o Paralamas, a Zélia Duncan, o Capital Inicial,
artistas de peculiar integridade e respeitável trajetória musical.
Aqui, onde o horário é referência nacional (até o polêmico horário de verão),
é uma cidade-resistência, cidade-sonora, cidade-amplidão,
da Feira do Livro, do circuito alternativo,
cidade-cultural, cidade-canção.
Ainda bem que nem tudo aqui é conchavo,
disputa pelo enriquecimento a qualquer preço.
Em Brasília, uma cidade eminentemente administrativa,
há espaço para as artes, o sonho e tudo o que pareça louco.
Em suma, tudo o que se disser, no intuito de adjetivá-la, ainda é pouco...
Quem já contemplou o céu de Brasília,
no crepúsculo ou no alvorecer, no contraste das cores e
suas múltiplas combinações, sombras, luminosidade...
ou numa noite significativa, uma lua sem igual...
há de compreender que
os reais cidadãos brasileiros, brasilianos, brasilienses
merecem um Brasil à altura dessa paisagem federal.
BSB-DF, 06/02/2008
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